O que era para ser apenas uma troca de motor — do 350” V8 original para um 454” preparadinho — se tornou um projeto cabeçudo, com visual e receitas vindas da Arrancada. Isso aconteceu após o dono deste Camaro Type LT 1975 catarinense vir para São Paulo e conhecer a oficina dos irmãos Alexandre e Adriano Kayayan. Segundo Alê, um mago dos V8 big block, “ele viu projetos de alguns muscle cars nervosos, feitos por completo. Foi instantâneo: ele quis que seu pacato Chevy virasse um Street Rod de respeito!”. Além do contraste entre as rodas (bem largas atrás e finas na frente), recebeu potência extra, suspensão e freios especiais. 

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Enquanto o V8 big block era montado fora do carro, a carroceria dava adeus ao amarelo original com um extenso trampo de funilaria, não apenas para receber o tom azul Blue Caelum, de Lamborghini, como também ganhar importantes alterações estruturais. Os sub-chassis dianteiro e traseiro foram unidos por longarinas especiais, enquanto as suspensões originais deram lugar a modernos sistemas coil-over — atrás ancorados por ladder-bars, onde antes existiam feixes de molas. Para comportar a nova suspensão e a tala nervosa das rodas traseiras, o banco de trás foi retirado e as caixas de rodas, aumentadas. Tanque de combustível foi trocado por outro de inox, com 80 litros e que agora fica no porta-malas.

Os polêmicos parachoques do LT renderam quase duas semanas de trabalho árduo para ficarem compactos e quase embutidos na carroceria. Sem borrachão algum, é claro, deram um naipe mais atlético ao comprido Chevy. Para finalizar, o enorme capô recebeu um scoop idêntico ao usado nas Corvette L88, de 1967. Além de conferir um estilo Dragster ao Camarão, Alê conta que as modificações o deixaram sólido para uso diário e até para viagens. Para fechar o estilo singular com chave de ouro, vieram rodas da Billet Specialties com enormes pneus Hoosier na traseira, de 29” x 15,5”.

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Cilindrada abusada

O V8 454”, por sua vez, foi retificado e passou a deslocar 7,6 litros. Segundo Alexandre, toda montagem de um big block pede diversos segredos e macetes. “Não é como um small block, que aceita malcriações do preparador. Não dá para errar folgas, tipo de varetas e até mesmo o comando de válvulas, sob pena do rendimento despencar”, afirma. O comando, no caso, fica por volta de 280°, o que, junto dos cabeçotes de alumínio Edelbrock, dão ao motorzão elasticidade para gerar em torno de 70 kgfm a 3.500 rpm e 500 cv na casa dos 6.000 rpm. Em técnica herdada da Arrancada, os Kayayan deslocaram o big block quase 6 cm para trás, o que ajuda este Camarão a tracionar muito melhor!

A alimentação da usina foi capítulo à parte: usa um coletor de admissão Edelbrock para carburador, adaptado pela Belquip para receber um corpo de injeção quádruplo de 1.050 cfm e oito bicos injetores. O controle da gasosa Podium enviada (e da ignição, com sinal via roda fônica) fica a cargo de um módulo FuelTech FT500.

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Já a transmissão original deu lugar a uma mais robusta (TH400), também com três marchas, diferencial auto-blocante e radiador de óleo maior. Freios agora são compostos por um kit Willwood.

Mesmo com dois abafadores sarados de inox (obra da German, SP), o escape de 3” em “X” rende uma sinfonia absurda, que fez o dono dispensar qualquer sistema de áudio. A seguir, a ideia é apimentar a receita com um compressor mecânico. Ao menos “chão” para tanto, não lhe falta. Um Chevy igualável a projetos gringos, mas com criatividade “Made in Brazil”.

Texto Guilherme Silveira

Fotos João Mantovani