História

Renault Oroch sai de linha: relembre a história da picape

Depois de cerca de onze anos de vida, é o fim confirmado para a Renault Oroch no mercado brasileiro

Por: Lucca Mendonça – Especial para FullPower

A Renault Oroch está oficialmente aposentada no Brasil, e essa confirmação veio da própria marca. Após 11 anos de mercado, a picape deixou de ser produzida no Complexo Ayrton Senna, em São José dos Pinhais (PR), encerrando uma trajetória iniciada em 2015. Sua saída abre caminho para a nova Renault Niagara, fabricada na Argentina, e também ajuda a reorganizar a operação industrial paranaense, que passa a receber novos modelos da chinesa Geely.

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Renault Duster Oroch – Foto: divulgação

A despedida já era esperada desde setembro, quando a Renault anunciou que a Oroch não dividiria espaço com a Niagara em sua linha de produtos. A sucessora é maior, mais moderna e utiliza uma plataforma diferente, compartilhada com o SUV Boreal. Além disso, a fabricante pretende posicioná-la em uma faixa superior do mercado, enfrentando principalmente a Fiat Toro.

Renault Duster Oroch – Foto: divulgação

A Renault Oroch, por sua vez, deixa uma contribuição importante para o setor automotivo brasileiro: foi uma das responsáveis por inaugurar a categoria das picapes intermediárias, com porte superior ao de Fiat Strada e Volkswagen Saveiro, mas sem chegar às dimensões de Toyota Hilux, Chevrolet S10 e Ford Ranger. E, embora tenha sido superada comercialmente pela Fiat Toro, chegou primeiro ao mercado.

Renault Duster Oroch – Foto: divulgação

Renault Oroch nasceu de uma ideia argentina

A história da Renault Oroch começou por volta de 2010, quando engenheiros da fabricante na Argentina passaram a estudar a possibilidade de desenvolver uma picape a partir de um veículo já existente. A ideia era criar um produto mais espaçoso e versátil que as pequenas picapes da época, sem os custos de desenvolvimento de um projeto completamente novo.

Renault Duster Oroch Concept – Foto: divulgação

Conforme uma reportagem histórica publicada pelo jornalista Jason Vogel, no Motor1 Brasil, em setembro de 2026, os primeiros estudos foram conduzidos pelos engenheiros argentinos Adolfo Felippa e Leandro Colombato. Parte do trabalho aconteceu fora do expediente, incluindo desenhos feitos no simples programa Paintbrush, antes que a proposta recebesse aprovação oficial da Renault.

O caminho escolhido foi aproveitar a plataforma B0 do Duster, SUV que também tinha parentesco com os modelos da Dacia, subsidiária romena da Renault. A proposta ganhou força dentro da companhia e passou a envolver profissionais do Brasil, Argentina, França e Romênia, sob o código de desenvolvimento U79.

Renault Duster Oroch Concept – Foto: divulgação

Apesar de compartilhar a arquitetura com o Duster, a futura picape exigiu modificações estruturais importantes. A distância entre-eixos foi ampliada para 2,83 metros, enquanto o comprimento total chegou a 4,69 metros. A parte traseira precisou receber reforços específicos para suportar até 650 kg de carga, além de uma caçamba com capacidade volumétrica de 683 litros.

Renault Duster Oroch – Foto: divulgação

Outra particularidade estava na suspensão traseira independente, derivada daquela utilizada pelo Duster 4×4. Essa solução permitia oferecer comportamento mais próximo ao de um automóvel de passeio, sem abrir mão da capacidade de transporte. A carroceria monobloco também ajudava a diferenciar a Oroch das picapes médias tradicionais, construídas sobre chassis de longarinas.

Estreia em 2015, antes da Fiat Toro

Renault Duster Oroch – Foto: divulgação

A primeira aparição pública aconteceu no Salão do Automóvel de São Paulo de 2014, quando a Renault apresentou a Duster Oroch Concept. O desenho foi desenvolvido pelo centro de estilo latino-americano da fabricante, com participação do designer brasileiro Yuri Hayek. A versão definitiva surgiu no Salão de Buenos Aires, em junho de 2015, e chegou ao mercado brasileiro no final de setembro daquele ano. Na época, o nome oficial era Renault Duster Oroch, surfando no sucesso do SUV que havia servido de base para o projeto.

Renault Duster Oroch – Foto: divulgação

Inicialmente, a picape oferecia duas motorizações flex. A opção de entrada utilizava o conhecido 1.6 16V de até 115 cv de potência, da família SCe, combinado ao câmbio manual de cinco marchas. Acima dela estava o 2.0 16V de até 148 cv, inicialmente associado à transmissão manual de seis velocidades. Posteriormente, a linha recebeu também uma configuração automática de quatro marchas, enquanto os carros 1.6 puderam, depois, ser casados a um câmbio CVT.

O lançamento aconteceu alguns meses antes da Fiat Toro, apresentada comercialmente em fevereiro de 2016. Apesar da vantagem cronológica, a Renault não conseguiu aproveitar plenamente o crescimento da categoria. A concorrente da Fiat chegou com projeto mais sofisticado, opções turbodiesel, tração integral e uma gama mais ampla de versões. Enquanto a Toro se consolidou entre as picapes mais vendidas do país, a Oroch manteve volumes comerciais mais modestos, sustentados principalmente por sua proposta de robustez, simplicidade mecânica e versatilidade.

A grande mudança aconteceu em 2022

Renault Oroch TCe – Foto: Lucca Mendonça

Durante boa parte da carreira, a Duster Oroch recebeu poucas alterações. Sua principal atualização chegou em 2022, já como linha 2023, quando perdeu o sobrenome Duster e passou a ser chamada simplesmente de Renault Oroch. A mudança veio acompanhada de retoques visuais, alterações na cabine, novos equipamentos e uma opção mecânica mais moderna. O destaque ficou para o motor 1.3 turboflex de até 170 cv de potência, associado ao câmbio automático CVT renovado, que substituiu o antigo conjunto 2.0 aspirado.

O motor turboflex, de projeto em parceria com a Mercedes-Benz e produção espanhola, melhorou consideravelmente o desempenho da picape, mas teve vida relativamente curta na gama brasileira. Posteriormente, a Renault simplificou a oferta, concentrando as vendas nas versões equipadas com o motor 1.6 aspirado e transmissão manual de cinco marchas, mais voltadas ao trabalho, frotistas, locadoras e por aí vai.

Mesmo com a atualização, a Renault Oroch continuou utilizando a arquitetura original do Duster de primeira geração, enquanto até o próprio SUV recebia nova geração com evoluções diversas. A idade do projeto também ficava evidente diante da concorrência, principalmente em ergonomia, acabamento, conectividade e segurança. O resultado veio nas vendas: entre janeiro e setembro de 2026, a Renault Oroch emplacou pouco mais de 8 mil unidades, contra quase 43 mil da Fiat Toro. Em 2025, durante os doze meses, foram 11,6 mil Oroch e 52,1 mil Toro. Voltando um pouco no tempo, em 2021, foram 12,1 mil Renault, versus 70,9 mil Toro. Os dados são da Fenabrave.

Renault Oroch 1.6 – Foto: divulgação

Fim da Oroch abre espaço para a Geely no Paraná

O encerramento da produção da Renault Oroch também acontece em meio a uma importante transformação industrial da Renault no Brasil. Ela era fabricada na unidade Curitiba Veículos Utilitários (CVU), uma das fábricas que integram o Complexo Ayrton Senna, em São José dos Pinhais (PR). O local também é responsável pela montagem do furgão Master, nas suas diferentes versões.

Renault Oroch TCe – Foto: Lucca Mendonça

Agora, parte dessa estrutura será utilizada para a produção em série dos Geely EX2 e EX5 DM-I (PHEV), que sairão justamente da CVU. O EX5, aliás, já teve até anúncio de início de produção em setembro, mas o pequeno EX2 vai demandar um ritmo de produção mais intenso, dadas as suas vendas em alta no mercado nacional. Com isso, a aposentadoria da Renault Oroch contribui para a reorganização da capacidade produtiva, e libera espaço na planta fabril para a produção em volume dos modelos chineses.

Renault Niagara assume o lugar

Sucessora da Renault Oroch, a Niagara, por sua vez, será produzida na fábrica de Córdoba, na Argentina. A nova picape utiliza a plataforma modular RGMP, compartilhada com o Boreal, e mede 4,94 metros de comprimento, com 2,96 metros de entre-eixos e caçamba de 938 litros. É, portanto, consideravelmente maior que a Renault Oroch.

O motor será o 1.3 turboflex de até 160 cv de potência e 27,5 kgfm de torque, associado ao câmbio manual de seis marchas nas configurações de entrada ou à transmissão automatizada de dupla embreagem e sete velocidades nas demais. A versão Outsider terá tração integral, recurso que a Renault Oroch chegou a oferecer no exterior, mas nunca disponibilizou ao público brasileiro.

Renault Niagara – Foto: divulgação

Além do novo conjunto mecânico, a Niagara terá interior mais sofisticado, instrumentação digital, central multimídia com Google integrado e um pacote de assistentes de condução mais completo. A Renault também prepara uma configuração eletrificada para 2027, híbrida-leve, numa outra tecnologia que a Oroch atual nem sonha. De qualquer forma, missão cumprida!